O que deixei em 2020
- Gabriela T.

- 8 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Eu não vou nem entrar no mérito de que 2020 foi um ano atípico e que foi um período extremamente difícil pra todo mundo. Todo mundo já sabe.
Também não quero fazer mil lamentações de como esse ano foi difícil pra mim porque, por mais que tenha sido, eu não estou em posição de reclamar. Só agradecer. E muito.
Tô aqui falando sozinha no meu quarto, refletindo sobre as coisas que 2020 me obrigou a refletir e uma dessas coisas é que eu deixei de escrever.
Por isso estou aqui escrevendo sobre tudo que eu “deixei” em 2020.
Eu deixei de sair, obviamente. Não que eu fosse uma pessoa que super batia perna por aí antes, mas eu ainda topava um rolê ou outro, principalmente quando envolvia comida e filme. Inclusive, o rolê que eu mais gostava era de ir ao cinema e, claro, deixei de fazer isso também. Mas tudo bem, néh? Afinal de contas Netflix e Torrent tão aí, então é só sucesso. Porém, ir ao cinema era quase que sagrado pra mim e pro meu namorado. Era praticamente nosso encontro oficial e ter que deixar de ter esses encontros foi ruim demais.
Mas, como eu disse, eu não posso reclamar. Tive o privilégio de poder ficar com meu namorado praticamente a quarentena toda e, olha, se a gente ainda tá junto, acredito que vamos casar mesmo porque fácil não foi.
Apesar de ter sido ótimo poder ter meu namorado perto de mim o tempo todo, também foi muito difícil ter meu namorado perto de mim o tempo todo. Não sei vocês, mas eu adoro ter o meu próprio espaço e meus momentos sozinha e, em 2020, eu deixei de ter isso. De novo, não posso reclamar. Se eu não tivesse a companhia e apoio dele aqui, nem sei o que teria acontecido. Só é difícil não poder ter uma coisa pela qual você preza muito – no caso, privacidade (risos).
Em 2020, eu deixei de ver meus amigos. Logo mais vai fazer 1 ano que não vejo eles e acho que isso foi o que mais me pegou. Eu nunca fui aquela amiga super presente fisicamente e talvez esse seja o maior arrependimento que 2020 me fez ter. Perdão, amigos. Perdão mesmo.
Em 2020, eu deixei de trabalhar. Sabe quando a água bate na bunda e você percebe que precisa mudar? Então. Ser maquiadora nunca foi fácil, mas ninguém nunca pensou que, do nada, isso seria inviável. Muitas e muitos colegas de profissão continuaram os atendimentos e, graças a Deus, ficaram bem, mas eu não pude. Até porque, em 2020, eu quase deixei de mover o braço. Minha bursite veio, resolveu ficar e tá aqui até agora, inclusive. Ela me deixa em paz de vez em quando, mas parece aquela visita chata que não sabe a hora de ir embora.
Minha relação entre saúde e trabalho sempre foi meio conturbada. Maquiagem é um trabalho braçal e que te faz ficar em pé e em posições desconfortáveis os dia todo, só que meu corpo ignora esse fato e resolve dar problema nas partes que eu mais preciso dele: braço, coluna e pés. Não precisava, precisava? Pois bem. Por conta disso, em 2020, eu deixei de acreditar que tudo ia ficar bem se eu não tomasse uma atitude em relação a isso e foi aí que a minha saúde mental foi pro saco.
Em 2020, eu deixei de acreditar que eu tava bem. É complicado falar disso porque eu tenho noção do quão privilegiada eu sou. E, repito, eu não posso reclamar. Só posso agradecer por ter percebido isso na segurança da minha casa e por ter tido condição de procurar ajuda. Com isso, eu deixei que me ajudassem e comecei a fazer terapia.
No início da terapia eu me sentia patética e totalmente perdida. Hoje, eu ainda me sinto assim, não vou mentir não. Mas, mais do que patética e perdida, hoje eu me sinto “encaminhada”. A terapia não resolveu todos os meus problemas e acho que nem vai, mas ela me ajudou - e tem me ajudado - a deixar de “deixar tudo pra lá”. O que, sinceramente, já é uma grande coisa.
Em 2020, eu deixei mais coisas acontecerem. Isso, com certeza, está relacionado ao fato de que eu estava presa dentro de casa 24/7 e que eu tinha que arranjar coisas pra fazer antes de enlouquecer de vez. Por isso, o Coletivo Roda (@rodacoletivo), que já era um projeto que eu fazia parte e que ajudei a criar, cresceu TANTO.
Quase que 100% da minha energia foi direcionada ao Roda e eu tenho certeza que foi assim pra todas as outras integrantes também. Isso foi maravilhoso, na real. Ajudamos muitas pessoas, fizemos conteúdos incríveis, percebemos o potencial que nosso projeto tem e nós crescemos tanto que precisamos chamar mais integrantes pra dar conta de tudo que tava acontecendo. Só mulheres incríveis, diga-se de passagem.
Nesse sentido, foi tão bom, mas tão bom que eu percebi que não posso dedicar mais 100% da minha energia em uma coisa só nunca mais HAHAHAHAHA O Roda é maravilhoso. Eu me sinto extremamente grata por poder fazer um trabalho tão incrível ao lado de amigas incríveis, mas ele ainda é um trabalho árduo que exige muito esforço físico e, principalmente, mental. Foi ótimo me dedicar tanto a ele, mas eu quero – e preciso – dividir melhor minha energia pra ela não ficar focada em uma coisa só.
Obviamente é besteira pensar que, em 2021, todos os problemas atuais irão sumir e tudo vai se resolver magicamente. Eu bem que queria acreditar nisso, de verdade. Mas o Brasil me obriga a deixar de ser besta. Taí outra lição de 2020.
Porém, eu realmente espero que toda a passagem de ano novo tenha servido pra, pelo menos, dar mais força pra gente continuar seguindo sem deixar de ter um pouco de esperança.
Feliz Ano Novo pra você que está lendo e que 2021 seja (um pouco) melhor que ano passado.
Com amor, Gabi <3

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