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Vintage anos 70 e como eu percebi que maquiagem também comunica

  • Foto do escritor: Gabriela T.
    Gabriela T.
  • 3 de fev. de 2021
  • 5 min de leitura

Hey! O texto é longo, eu sei. Falei um pouco sobre o meu processo criativo, pesquisa e as reflexões que tive criando essa maquiagem. Se não quiser ler sobre isso, não tem problema. Mais pra baixo estão as fotos da maquiagem, como eu a criei e a lista dos produtos usados - o que eu lembrei, porque isso tem alguns anos haha. Boa leitura <3

O ano era 2018. Eu ainda estava na faculdade e estava prestes a receber o tema da primeira prova prática da minha matéria favorita na faculdade: foto e passarela.


Eu sempre gostei muito de moda num contexto geral, mas sempre fui deslumbrada por desfiles megalomaníacos e extremamente conceituais. Por isso, na primeira aula de foto e passarela eu pensei: "Esse momento é meu!".

Infelizmente, não tivemos desfiles megalomaníacos, mas todas as alunas podiam viajar nos seus projetos o tanto que conseguissem - desde que seguissem o tema (ou briefing, se você preferir).


Em um dia de aula normal, a professora (Adriane Ishida, maravilhosa) conversou um pouco com a sala sobre conceito de moda e revelou o tão aguardado tema da nossa primeira prova prática: "Vintage Anos 70".


Ninguém entendeu nada.


Ela explicou que era pra fazermos uma maquiagem que remetesse a década de 70 e que a leitura dela na passarela fosse de algo mais antigo. Ou seja, se o desfile acontecesse em meados dos anos 70, a maquiagem seria atual e, se ele acontecesse hoje, a maquiagem seria vintage. Tudo isso sem parecer que você fantasiou a modelo. Louco, né?


Alguns dias de pesquisa depois, eu cheguei à cultura Hippie.

Tá certo que os hippies "nasceram" nos anos 60, mas eles ainda eram bem presentes na década seguinte. Inclusive, nessa pesquisa, aprendi muita coisa sobre essa cultura (ou contracultura) que eu nem imaginava e que me fez pensar muito.


Depois da pesquisa, descobri a direção do que eu queria seguir. Mas, a partir do momento que eu comecei a procurar referências de maquiagem, o negócio ficou realmente muito difícil.

Nunca tinha percebido como a gente coloca a cultura hippie numa posição caricata e fiquei embasbacada de perceber o quão difícil é achar uma foto verdadeiramente da época. Toda a cultura foi soterrada por fantasias bem estranhas, maquiagens extremamente pesadas e looks "inspirados" constituídos apenas por uma saia longa e uma headband na cabeça.


Foi muito triste perceber que a cultura hippie, nascida de um movimento político de antiviolência e liberdade, acabou virando - aos nossos olhos - apenas uma roupa estampada e um sinal de "paz e amor". Por isso, decidi me basear em um filme que foi passado na aula de história da maquiagem (obrigada, professor Armando).


O filme Hair (1979) é a adaptação do clássico da Broadway de mesmo nome e é ambientado no final dos anos 60/início dos anos 70. Ele mostra muito da cultura hippie e, como todo o visual é extremamente preciso, isso me ajudou muito.

Minha maior inspiração para o que eu queria fazer - principalmente para o cabelo - foi no momento da música "Age of Aquarius". A vibe, as cores, a fluidez. Tive vários insights vendo essa parte do filme e ouvindo essa música.


Percebi que, mesmo a maquiagem não sendo o grande destaque na cultura hippie, ela poderia ser uma grande aliada na hora de passar uma mensagem junto às roupas e os cabelos. Para falar a verdade, acho que foi a primeira vez que eu pensei nessa possibilidade.

Bom, eu finalmente consegui estruturar meu conceito pra maquiagem. Faltava escolher minha modelo - e eu tinha uma pessoa perfeita em mente desde o início.


Todo mundo tem uma amiga que emana plenitude, não é? Aquela pessoa que parece que nunca tem nenhum problema. Essa minha amiga é a Bárbara (Bai).


Quando penso na Bai, eu automaticamente penso em leveza. Eu olho pra ela e penso: "cara, eu quero ser tranquila assim!". O que é incrível já que ela é super politizada e eu achava que era IMPOSSÍVEL alguém ser tão politizado e zen ao mesmo tempo.


Mas eu estava errada porque, afinal, o movimento e a filosofia hippie são repletos de vivacidade, beleza e - claro - política. E é tudo isso que eu enxergo olhando para a Bai. <3



Maquiagem

Fotos por Thaís Carolini (@lab7_producoes)

Desde que tinha decidido que faria uma maquiagem inspirada na cultura hippie, minha ideia era criar uma maquiagem cujo objetivo principal não fosse de embelezar. Eu queria trazer a sensação de algo divertido e leve e que, por isso, embelezava. Além disso, a função dela, dentro de um contexto politizado, também seria de passar uma mensagem.


A pele foi feita com uma base de textura bem leve e apliquei com um pincel duo fiber, apenas pra uniformizar o tom mesmo. Também preferi que ela fosse matte, desse jeito evitaria o uso do pó e o resultado seria o mais natural possível. Ressaltando que hidratei bem a pele dela, ok?


As têmporas estão levemente bronzeadas para dar a sensação de que ela fica muito ao ar livre e sob o Sol. Os tons da sombra e da própria pele da Bai remetem muito aos tons terrosos e, junto ao verde vibrante da sombra, faz a gente lembrar automaticamente da natureza.


Falando nessa sombra verde, ela me deu um trabalho... Infelizmente, ela não entregava essa quantidade de pigmento. Então, eu tive que me virar e usar uma tinta branca e extremamente cremosa como base de sombra para que ela tivesse algum efeito. Deu trabalho esfumar aquele creme todo, mas o resultado valeu super a pena.


Aliás, a sombra não foi a única coisa que me complicou nessa maquiagem. Na hora de fazer o esfumado nas têmporas eu pesei a mão demais e, quando vi, parecia que a Bai tinha levado um soco!

Gente, nosso desespero na hora... Tive que tirar toda a pele e refazer. Deu tempo, mas a gente quase morreu do coração HAHAHAHAHAH


Acontece.


Eu contornei a boca de leve com um lápis muito próximo do tom natural dela e passei um gloss efeito vinil. Foi muito importante ele ser de efeito vinil no resultado final porque eu não queria partículas de brilho nessa maquiagem. Não faria sentido no contexto já que a intenção era uma coisa mais leve e "natural".

O gloss vinil, inclusive, deu um efeito de boca molhada que ficou incrível!


A maquiagem por si só já está linda, na moral. Mas essas pedras coladas nas têmporas... Eu acho esse efeito tão maravilhoso que nem consigo explicar. As pedras estão aí para representar todas as preciosidades que vêm da terra. Então, no final, a Bai está a pura Mãe Natureza hahahaha


Como eu disse, o intuito principal dessa maquiagem não era de embelezar, mas de ser algo leve, divertido e significativo.

Tudo que foi colocado na produção faz sentido e constrói uma narrativa. Desde o vestido que era, de fato, vintage (roubei da minha mãe hehe) até o cabelo preso em um coque "desleixado" e cheio de flores.


Inclusive, prender o cabelo faz com que a maquiagem fique ainda mais em evidência. Fica a dica.



O que faria de diferente hoje?


Essa maquiagem foi feita em 2018 e, por mais que eu a ame, tem uma coisinha que eu mudaria.

Olhando hoje, eu acho que a sobrancelha da Bai está muito arrumada. Não faz muito sentido no contexto geral. Por isso, eu deixaria a sobrancelha bem bagunçada e, talvez, criaria mais pelinhos pra parecer mais cheia.




Esse foi o primeiro trabalho em que eu me joguei na criação de um conceito e que me fez perceber que a maquiagem comunica muito mais do que um "bonito/feio".

Mais que isso, esse foi o trabalho que fez eu me apaixonar ainda mais por comunicação. Irônico, mas é.



Toda maquiadora fica acabada depois do trabalho Haha

Muito obrigada por ler até aqui!



Com amor, Gabi. <3









PRODUTOs

Base efeito Matte Vult;

Cola de cílios Super Strong Hold Kiss (pra colar as pedrinhas no rosto);

Corretivo facial líquido Jasmyne (bem pouquinho);

FAB Branca (tinta que usei como base de sombra);

Gloss efeito vinil Quem Disse Berenice?;

Lápis de boca cor 210 Maybelline;

Lápis de sobrancelha Vult;

Máscara incolor Dailus (pra pentear a sobrancelha);

Pedrinhas foram compradas na papelaria (algumas delas são autocolantes e outras são de costura);

Sombra unitária Jasmyne;

Sombra marrom Duda Fernandes (têmporas).

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